QUE HÁ-DE SER DE NÓS
Já viajámos de ilhas em ilhas
já mordemos fruta ao relento
repartindo esperanças e mágoas
por tudo o que é vento
Já ansiámos corpos ausentes
como um rio anseia p´la foz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?
Que há-de ser do mais longo beijo
que nos fez trocar de morada
dissipar-se-á como tudo em nada?
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
Já avivámos brasas molhadas
no caudal da lágrima vã
e flutuando, a lua nos trouxe
à luz da manhã
Reencontrámos lágrimas e riso
demos tempo ao tempo veloz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós
Que há-de ser da mais longa carta
que se abriu, peito alvoroçado
devolver-se-á: «endereço errado?»
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
Já enchemos praças e ruas
já invocámos dias mais justos
e as estátuas foram de carne
e de vidro os bustos
Já cantámos tantos presságios
pondo o fogo e a chuva na voz
já fizemos tanto e tão pouco
que há-de ser de nós?
Que há-de ser da longa batalha
que nos fez partir à aventura?
que será, que foi
quanto é, quanto dura?
Que há-de ser, só nós o sabemos
pondo o fogo e a chuva na voz
repartindo ao vento pedaços
que hão-de ser de nós
(Sérgio Godinho/ Ivan Lins)
Apesar de me acusarem de ser uma espécie de Pilatos da urina, eu continuo na minha tarefa estóica de divulgar versos:
"Que nenhum anjo levante as pálpebras"
Echevarria.
(Também serve como explicação da cegueira que a voz de Camané provoca. Acerca dele, nada se pode dizer, resta o silêncio.)
O nosso João Tilly perdeu o pai, só isso seria suficiente para lhe enviarmos um enorme abraço.
A triste sequência de acontecimentos que levou à sua morte, e que o João corajosamente descreveu aqui merece mais. Infelizmente lembra-nos tantas histórias do triste pais em que vivemos.
"Sopram ventos adversos" (Manuela de Freitas/José Mário Branco)
Sopram ventos adversos
Junto à praia que se quis
E há sentimentos dispersos
Que são barcos submersos
No mar do que se não diz
Nos mastros que vão quebrar
Soltas velas de cambraia
E é cada remo a tentar
Menos um barco no mar
Mais um cadáver na praia
O dia nunca alcançado
Morre em todas as marés
E é sempre dia acabado
Junto ao sargaço espalhado
De tudo o que se não fez
Parece sempre tão pouco o que se possa escrever sobre Camané. Porque ele depois canta e inevitávelmente sentimo-nos minúsculos perante aquela voz.
Mas não é só a voz, nem é só a verdade com que todas as palavras saem da sua boca.
É a renovação do fado é feita por dentro, sem recurso a concessões tenebrosas a novas tendências. É a escolha perfeita dos companheiros de viagem: José Manuel Neto, Carlos Manuel Proença e Carlos Bica são grandes músicos.
E José Mário Branco (desculpem a insistência) sempre presente, nas músicas que assina, no seu trabalho de direcção musical, e na plateia, lá bem no fundo, para ouvir, não para ser visto...
Foi sublime o momento em que se ouviu "Sopram ventos adversos" (bem podia ser um hino da Laranja, tenho de tratar disso).
Foram de uma força demolidora os encores (não é possível ficar indiferente a ouvi-lo cantar "Saudades trago comigo").
Foi bonito vê-lo no início da segunda parte sentado, à mesa, como se de repente nos tivessemos todos transportado para uma casa de fados.
A RTP gravou e poderemos ver (ou rever) um destes dias.
1ª Parte
Mais um fado no fado
Fado Penélope
Marcha do Bairro Alto
Filosofias
Quadras
Memórias de um chapéu
Ela tinha uma amiga
Noite apressada
Por um acaso
Fado sagitário
Ponto de encontro
2ª parte
Triste sorte
Fado da sina
Esquina de rua
Escada sem corrimão
Complicadissima teia
Instrumental
Sopram ventos adversos
Maria II
Eu não me entendo
A cantar é que te deixas levar
Mote
Se ao menos houvesse um dia
1º Encore
Estranho fulgor
Saudades trago comigo
2º Encore
Senhora do Livramento
A minha rua
O jb lava as mãos quando usa um urinol público. Ele já tinha avisado.
Terça-Feira

Quarta-feira

Sexta-feira

Sábado

Hey! eu não vou conseguir escrever sobre tudo isto, quero outro ordenado sff.
O nosso vizinho Luis Rei faz saber que o Fausto vai a Sines comemorar os 30 anos do 25 de Abril. Há mais nomes, e interessantes, a completar o quadro. E bolas, ainda não chegámos ao verdadeiro festival.
N. e P.: quer-me parecer que aqui estamos todos a falhar um pouco. Aliás, quer-me parecer que aqui todos falharemos sempre.
Não, não me parece que seja possível negociar com a Al-Qaeda. Por uma única razão: porque eles não têm agenda. Eles não têm ideário, ideologia, não têm exigências. O que conhecemos das declarações deles é que querem a destruição do ocidente, querem o im da civilização ocidental, do nosso modo de vida etc. Nem sequer estou certo que isto seja verdade - pode bem ser retórica de gente profundamente maníaca.
Mas a verdade é que, na prática, não há nada para negociar.
Note-se: haja essa oportunidade e, por princípio, eu estarei a favor. Mas lá que me parece descabido, bem... parece mesmo.
Mas isso não quer dizer que o N. não tenha uma certa razão em criticar Portas. Já quanto às críticas à atitude da esquerda, podemos vê-las de uma forma simples: Soares está acima (ou ao lado dos partidos) neste momento. Ao Ps não restava outra coisa senão por-se aparte das declarações de Soares. Era óbvio que o velhote ficaria isolado.
Isto, meus amigos, é apenas política. Politquinha. E ela continuará a existir com ou sem guerra.
Gostarmos dela ou não, essa é outra questão.
N., li-te com toda a atenção, como sempre, e em geral concordo contigo. Mas estranho ler isto:
As críticas da esquerda ao caminho preconizado por Soares só vieram fortalecer na opinião pública os rodriguinhos floridos do discurso de Portas, que desatou, com a lucidez do costume, a falar do "rapaz que rouba para comer e dos terroristas de massas".
Deixa-me só dizer-te uma coisa. A solução do problema terrorista não passa pelo medo, mas a luta contra a demagogia também não pode passar pelo silêncio, nem por uma postura completamente acrítica sobre o que diz a nossa esquerda. Que não é a tua diga-se em abono da verdade.
Falamos logo à noite
Pai, quando receberes o subsídio de férias, compras-me uma Playstation 2?
Acabei de ler isto na LUSA e de ouvir a mesma coisa na SIC Notícias.
Mário Soares defende diálogo com Al-Qaida em vez do uso da força
O ex-Presidente da República e eurodeputado socialista Mário Soares defendeu na quinta-feira o diálogo com a organização Al-Qaida para perceber os seus objectivos e combater o terrorismo, em alternativa ao uso da força.
"Para fazer a paz não vale a pena falar com os que fazem a guerra?", questionou o eurodeputado, ao intervir numa conferência sobre direitos humanos em Lisboa, na Fundação Mário Soares.
Mário Soares deu o exemplo do dirigente da Esquerda Republicana da Catalunha Josep-Lluis Carod-Rovira, que teve um encontro com elementos da ETA, numa iniciativa "a que o povo espanhol respondeu com bom senso e sabedoria", fazendo aumentar o número de deputados daquele partido de um para oito nas eleições de 14 de Março.
Segundo Mário Soares, "há hoje dúvidas no mundo inteiro e nos próprios Estados Unidos acerca da eficácia e da adequação da sua luta anti-terrorismo, com a ajuda de outros Estados, até agora, o Reino Unido, a Itália e a Espanha".
Lusa/Fim
Desculpe lá Dr. Soares, importa-se de repetir? É que não estou mesmo a perceber onde quer chegar. Dialogar com a Al-Qaida? Perceber os seus objectivos? Não estará V. Exa. a exagerar um bocadinho? Ou terei percebido mal?
A democracia atrapalha seriamente o funcionamento do Governo Regional da Madeira.
Sim, é verdade. Esta é a nossa 1400º posta. E calhou no 2º dia a seguir a ter ouvido a Aldina a cantar. Ficamos por aqui?
Consta por aí que hoje faz dois anos que a coligação PSD/CDS-PP reina entre nós. Assim de repente não sei a quem hei-de dar os parabéns... Mas admito que estava à espera que o Durão Barroso ou o Paulo Portas (ou os dois) fossem ao Cabaret da Coxa. Paciência. Calhou o Ricardo Costa. Pode ser que também seja giro.

Passou de F fundamental da pátria portuguesa para canção nacionalista e pouco adequada ao espírito revolucionário.
Foi reabilitado por figuras tão insuspeitas como José Mário Branco (se acham estranho ouçam o "Fado Penélope" pelo enorme Carlos do Carmo).
Houve quem o quisesse renovar e dar-lhe novas roupagens, modernas. Heresia? Talvez, mas quem é que hoje se escandaliza com a pose de Paulo Bragança e com o ar de mulher demasiado fatal de Anamar?
Vai-se hoje falando, mais uma vez, num renascimento do fado. A onda vai crescendo. Surgem novos nomes, alguns mais conservadores, outros a fazerem novos fados, alguns muito interessantes, outros que o tempo se vai encarregar de deixar esquecidos. E não os vou aqui mencionar. Há um único caso, impar, que lança uma enorme sombra sobre os seus companheiros.
Camané claro.
Mas o que é que nos interessa o fado novo quando nos surge Aldina Duarte.
Há fado (clássico, tradicional) vivo em Aldina. A sua voz é um instrumento e não um objecto de demonstração, um espectáculo pirotécnico. E tudo o resto é "apenas o amor". Dorido, magoado, silencioso, às vezes negro, mas infinitamente belo.
São fados, não são canções fadistas com violas e guitarras, não são poemas luminosos cantados por vozes cristalinas. São 12 canções doridas, 12 lamentos trágicos num magnífico disco.
Há apenas uma coisa que me passa pela cabeça nos últimos dias, acerca dos neo-liberais portugueses:
- Quantas lágrimas furtivas lhes terão caído pelo rosto no dia do atentado?
Não sabemos. Mas as nossas não são furtivas. E é isso que faz a diferença.
Agora não venham dizer que a culpa é de todos.
Ao menos tenham humilde e fiquem calados.

Há um magnânimo momento de delírio a roer-nos os intestinos nos últimos dias, de seu nome “Son of a gun”: depois de assobios e vozes cruzadas, um loop estranhíssimo abre caminho às vozes de Doseone e Why?, percussões alienadas, o rapanço dos dois MCs a devir numa espécie de balir, a quebra – e depois os órgãos saturados de mercúrio a liquidificar, até tudo acabar numa lista de homens assassinados e breakbeats em cascata por trás, com Doseone na sua imagem de marca (um metralhar quase inumano de palavras, como o se o sentido das palavras estivesse apenas na fluidez do dizer, como as palavras fossem usadas para abafar qualquer coisa e não para dizer), um drone de órgão, camadas de ruído. Dura dois minutos, uma assombração tóxica, uma nuvem de enxofre a subir pelas pernas acima deixando ligeiras pústulas.
E à 5ª canção (sim, são canções) sabemos: os cLOUDDEAD mudaram, começam a dar maior coerência ao habitual respigar de cacos do real, deixaram de colar com cuspo os estilhaços da estrutura canónica de uma canção para fazerem o todo fluir como uma espécie de bolo digestivo em perpétuo ruminar – mas continuam a fazer da alienação, do sufoco, da compulsão, do asfixiamento, da demência, do lixo das ruas com que se acorda na boca, das larvas dos cães vadios mortos na berma da estrada (literalmente; favor verificar “Dead Dogs”) e de todas as maçãs pobres que encimam o inferno dos sonhos americanos, ao 2º álbum os cLOUDDEAD mudaram mas continuam a transformar o desafecto no mais alucinado e belo dos pesadelos urbanos de hoje.
Tudo nos cLOUDDEAD é desde o início obsessivo (e no entanto auto-sarcástico), desapegado (e no entanto egocêntrico), massivo, sim, massivo. Mergulhar aqui é entrar em queda livre no centro da barragem – no exacto instante em que as comportas abrem. Basicamente, e caso o leitor nunca deles tenha ouvido falar, isto (não) é hip-hop. E (não) é vanguarda. E (não) é pop. E (não) é normal. Sim, há o “atmosferismo” de Eno a vigiar a melodia, a harmonia solar dos Beach Boys afagando a sobredosagem de ruído, a emulsão em morfina líquida (substância preferida de Deus) de uns My Bloody Valentine (importantíssimos para Odd Nosdam, o responsável pelos samples e terceiro elemento dos cLOUDDEAD) a contrabalançar o histrionismo dos MCs.
Aqui tudo está em constante alteração, cada nova partícula de som implode a frágil arquitectura sonora – e quando tudo está quebrado só resta colar os cacos e atribuir ao novo objecto uma utilidade máxima: em “The keen teen skip” há meia palavra de um garoto samplada, colocada em loop, flautas em transe, caixas de ritmos, órgãos empilhados. O que se segue é apenas Deus a nascer do lixo e a tornar-se música. Como a pop dissonante de “Rifle Eyes” (com as camadas de vozes a sobreporem-se até à alucinação e Doseone a mostrar que é hoje o maior MC do planeta). Como a pop (?) delicada e saturada e escatológica (“we secretly long/ to be part of a car crash”) de “Dead Dogs Two”, em que os dois MCs alternam quase palavra a palavra o microfone.
No mundo dos cLOUDDEAD pega-se na garrafa de tequilla, bebe-se até ao fim, trinca-se a larva, vem o torpor na nuca, o ardor nos olhos, parte-se a garrafa, pega-se no fundo grosso e coloca-se nos olhos à conta da miopia – e só duas horas depois (uma espécie de névoa na cabeça, todos os objectos a tornarem-se indefinidos) é que se atinge a lucidez. Falta aqui um tema como o sobrenatural “apt.A (2)” do primeiro álbum. Falta, se calhar, aquela noção de estarmos perante um objecto inacabado que tanto atraía na estreia – os cLOUDDEAD ainda são uma granada, mas hoje já não explodem – implodem. E é possível que este “Tem” fique a milímetros do primeiro. Acontece que apesar de tudo isso há mais ideias aqui, mais loucura controlada, mais limiar, mais luz negra, mais cruel ternura que em quase toda a pop (porque há muito que isto não é hip-hop) actual.
Parece que este é o fim dos cLOUDDEAD, que depois disto se seguirá a separação. Se assim for, o folk-indie-space-hop nasceu e morreu aqui. Combustão espontânea. Morte prematura. É isto a beleza dos cometas.
Cientistas descobrem chave para fim da infertilidade
Investigadores norte-americanos acabam de anunciar uma descoberta que poderá acabar com a infertilidade feminina. Segundo um estudo, publicado na última edição da revista Nature, a chave está na regeneração dos óvulos.
Uma equipa da Escola de Medicina da Universidade de Harvard constatou que os ratos fêmeas nascem com um número ilimitado de óvulos que vão sendo regenerados na idade adulta.
Esta descoberta deita por terra a teoria e que o número de óvulos mantém-se inalterado deste o nascimento e que tem tendência a diminuir com a idade.
Caso venha a ser provado que o fenómeno também se regista nos seres humanos, terão que ser reconsideradas as teses sobre a formação dos ovários e a sua função, o que abrirá caminho para a criação de novos métodos para manter, prolongar e recuperar a fertilidade feminina, refere o artigo.
Os investigadores descobriram estas células de regeneração nos roedores quando mediam o número de folículos nos quais amadurecem os óvulos.
Apesar de haver uma elevada perda de folículos, os ratos fêmea continuam a ter óvulos saudáveis durante mais tempo do que o estimado pelos investigadores.
Este fenómeno, até agora desconhecido, leva a suspeitar que o ovário tem capacidade não só para regenerar os folículos como também os óvulos, refere-se na revista.
Jonathan Tilly, membro da equipa de investigação, acredita, caso venha-se a constatar que a regeneração também acontece nos seres humanos, ser possível, através do isolamento, manutenção e transplante destas células, devolver a fertilidade a mulheres com cancro nos ovários.
Por sua vez, a presidente da Sociedade para a Medicina Reprodutiva dos EUA, Marian Damewood, considera que esta poderá ser a descoberta mais importante desde a fertilização in vitro, conseguida pela primeira vez há 25 anos.
«Se ficar confirmado com novos estudos, isto nos levará a reconsiderar o que acreditávamos ser um facto fundamental da biologia reprodutiva», concluiu.
(Sacado do DN. Exultai senhoras, exultai.)
Bastavam duas canções para que valesse a pena: "New partner" (onde estás, C.?) e "Agnes, queen of sorrow". Mas ele tinha de ir pegar em temas escondidos que já nem ele próprio se lembrava e alterar tudo.
Bonni Prince Billy, heir of sorrows.
Arranca à memória as canções dos Palace e reescreve-as à maneira de Nashville. Pode parecer assustador - e às vezes, ao início, é-o.
Mas lembra-me uma semelhante operação de maquilhagem que a maior parte das pessoas não gosta - e eu amo. Lembra-me "Recent Songs" de Cohen, quando o canadiano errante resolveu barroquizar a sua música. A maior parte das pessoas detesta, eu amo o disco. Tanto que até repito a frase.
Nada disto teria o mínimo interesse, não fosse a grandeza de Bonnie Prince Billy.
Não fossem aquelas duas canções. (Não me parece que este seja o momento indicado para falar delas. Mas o silêncio, um dia, acabará, e poderei dizer da grandeza desses restos de enxofre benigno que carrego, cavidade auricular adentro, alvélolos afora, há tanto tanto tempo.)
Não fosse "No more workhorse blues".
A dada altura ouve-se uma voz nasalada. Dura. Granítica, feita de gravilha. Um ruminar de vazios. Voz estilhaçada pela sua própria impotência. podia jurar que está desafinada, ligeiramente fora de tom. Podia jurara - mas sou incapaz de cantar uma nota. Digo apenas que acredito que ele esteja ao lado da canção - porque ali não pode haver centro.
A voz é de David Berman, líder dos Silver Jews.
Não sei dizer de David Berman.
sei que estás velho, meu amigo. Que me pareces cansado.
E no entanto, a tua voz sobe. Não sei para onde.
E tu cantas, palavras que nestes dias de extrema violência, me parecem as mais falsas. As mais belas.
"I am no more
workhorse
I am a racing horse
I am your favourite horse
I am a racing horse"
Dóis-me, David (sabias?).
Há homens que planam. Outros rastejam. A maior parte senta-se e fecha os olhos.
Tu caminhas apenas.
You are my favourite horse.
Julgo que este é o momento de todos nos calarmos.
Espero que todos os dirigentes tenham a sageza de dizer o mínimo possível, o absolutamente necessário.
De não tomarem decisões a quente.
Por mim entro em reclusão.
"Do que não se sabe deve guardar-se silêncio."
Wittgenstein
(É um poema de amor, na realidade. Mas julgo que antes de ser um poema de amor, é um poema de perda, de luto pelos que se perderam. A parte explicitamente amorosa, por pudor, foi cortada. A todos. E por todos.)
Funeral Blues
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.
W.H. Auden
Os mortos serão enterrados.
Filhos nascerão, contarão a história.
Netos nascerão, lê-la-ão nos livros da escola. Imaginarão os avós que não viram.
Um dia o que hoje é o mais puro terror será apenas uma data.
Ao medo não cederemos nunca. Em Espanha. Ou em Portugal.
E talvez, mas talvez (porque não sei, porque tão não sei) esta não seja ainda a altura de se decidir o que quer que seja. Pelo menos antes de se saber quem foi.
Neste momento a única decisão que podemos tomar
é viver.
Aconteça o que acontecer. Não ceder ao medo.
Viver.
Em honra aos que morreram.
E não cometer o erro de nos tornarmos tão bárbaros quanto os criminosos incapazes de perceber que cada vida humana é uma vida em si mesma.
Não temeremos.
Tristeza, imensa tristeza, é tudo quanto consigo sentir enquanto as imagens das vítimas dos atentados em Espanha me voltam a assaltar. As vítima de hoje, as de ontem...
"por estes dias o meu horizonte
é a linha dos teus ombros"
"O grande projecto que quero abraçar a seguir a este disco, pois não quero morrer sem o fazer, é um espectáculo conjunto com o Sérgio Godinho e com o Fausto".
No Y da semana passada, e eu não tinha ligado nenhuma. Porra, eu metia a mochila às costas e ia em tournée convosco.
CM tens toda a razão.
A emoção chegava, mas 24 horas depois é preciso dar a Janita o que é de Janita.
O homem tem um talento enorme, e não é só como grande cantor. A prova disso está no concerto de ontem. Janita Salomé é um compositor dotado, autor de algumas das mais belas canções portuguesas, mas nunca se encostou em "Tardes de Casablanca" ou "Não é fácil o amor". Não arrumou em glória as suas botas depois de ter gravado "Poema (a uma estrela cadente)". Nem sequer ameaça parar depois te ter acrescentado "Cerejeira da cerejas pretas miúdas" e "Sinal de ti" à sua brilhante carreira.
De resto foram quase duas horas de deslumbramento, no primeiro concerto do Janita (a solo) que eu vi num grande palco.
Confesso que a solo só vi quatro, e que concertos:
1. Ritz Clube - não me lembro do ano, presumo que tenha sido em 98. Da banda também só me lembro do Rui Júnior, que deu um enorme festival de percussão e de coisas pequenas. A lembrar que os pequenos detalhes contam. Um concerto infinitamente belo e envolvente.
2. Almada - Auditório Romeu Correia - ano de 2002. Com Mário Delgado a comandar as hostes, num concerto carregado de electricidade. Mágico também
3. Auditório da FNAC Colombo, 2004. É impossível amar um showcase da FNAC. Mas Janita não consegue ser menos que brilhante.
E o que eu mais queria era poder levar-te ao cinema.
Queres?
"Contra todas as evidências,
a alegria"
Manuel Gusmão
O André fez o favor de colocá-lo nos comentários, eu aproveito e deixo-o aqui:
"A boca
A boca, onde a memória
vem levantar fervura,
contrai-se, há quem a sinta
de súbito emergir da transparência.
O mar, há quem o faça
subir no encalço dela: é quando ao engolirmo-la a saliva
nos vai parar à memória
que todo o nosso coração fica à mercê das águas."
Luis Miguel Nava
(Abraço, André.)
eu dei-te as palavras
tu a alegria
e o que quer que tenhamos desejado
perdeu-se na tradução...
É antiga a minha tristeza
a das primeiras chuvas
(hoje apetecia-me dizer-te Panero, o poema que te deixei na mesinha de cabeceira enquanto tomava banho. Nunca to li em voz alta. E pensei no livro de São João da Cruz que comprei para te oferecer e não fui a tempo de te entregar. Sentado na cama a vestir-me, de repente na rádio começa o "City Sickness" - desligo o malévolo aparelho. Há noite ali dentro e eu quero que a rádio me traga o dia.
Guardo a roupa que deixaste no meu quarto. Guardo-a, para que vê-la não doa, na mala que o meu pai me ofereceu - há tantos, tantos, anos. Olho para ela antes de a depositar. Sei que nunca a virás buscar. Mas eu gostaria que...
Penso agora nas cartas que te escrevi e nunca pude enviar. Nas tua mãos tremendo. E numa frase que um dia me disseram: "sinto-me uma doença destruidora". Penso em como o tempo não cura.)
Podia ser só a emoção a fazer-me escrever destas palavras. Mas Janita encheu o Grande Auditório do CCB com o cristal da sua voz, com a intensidade das suas memórias, com o resultado da exigência que impõe à sua arte. Alinhou-se assim o concerto:
Tardes de Casablanca
Poema a Florbela
Ninguém tem mais peso que o seu canto
Poema oferecido a meus amigos
Paisagem com homem (com Pedro Jóia)
União Europeia (Adeus Cal) (com Pedro Jóia)
Senhora do Almortão (com Pedro Jóia)
Cante cigano (com Pedro Jóia)
Sinal de ti
Não é fácil o amor
Canção de Lisboa (de e com Jorge Palma)
Ciganos (com Jorge Palma)
Cerejeira das cerejas pretas miúdas
Redondo Vocábulo
Eu hei-de amar uma pedra (com Vitorino)
O homem do largo (com Vitorino)
Roda das Mafarricas
O Poder
Extravagante
Encores
Utopia
Credo
Ciganos (novamente com Jorge Palma, mas pouco)
Poucos poderão cantar Zeca Afonso como Janita canta. E que músicas ele escolheu para nos dar essa certeza!
Admito que senti a falta d' O Poema a uma Estrela Cadente, mas é só porque essa é a música que mais me emociona ouvi-lo cantar, não que tenha sido uma lacuna.
De resto, não conseguiria eleger o ou os temas em que esteve melhor. Mas é porque não consigo ter o distanciamento suficiente. Acho que nem quero.
Hoje, em 1914, o meu avô deu uma joelhada num móvel de entrada da casa de um amigo extremamente bem educado e gritou:
"C*r*lh@!!!"
(Ainda de memória)
"eu não sei dos pássaros
desconheço a história do fogo
mas creio que a minha solidão devia ter asas"
(O primeiro verso toca-me particularmente, coisa curiosa dos afectos da memória. Relembra-me essa obra prima que é "A Explicação dos Pássaros", do António Lobo Antunes.)
EN TU ANIVERSRIO
Recibe este rostro mío, mudo, mendigo.
recibe este amor que te pido.
Recibe lo que hay en mí que eres tú.
(citando de memória. Fell free to corrijate.)
"Dizer das coisas invisíveis
com palavras deste mundo"
(Outro livro que ficou o Norte. Mas hoje estes versos parece fazer todo o sentido.)

ZBOROWSKI, amigo de MODIGLIANI
(O que eu passei para encontrar a tua campa, meu amigo. Quando a vi, anónima, rústica, suja, tinha uma flor qualquer em cima, e um recado de duas garotas italianas - pelo menos o bilhete estava escrito em italiano - que diziam amar-te. Não sei quem eram. Mas para um tuberculoso alcoólico, não me parece nada mal que quase cem anos depois ainda tinha juvenis moçoilas a perderem-se de amores por si.)
Em apenas três meses em Lisboa passei de um falso cinismo para com a capital a um flirt à distância. Devagarinho vou começando a achar graça a isto. É sempre assim, claro. O que amamos das cidades são alguns lugares, meia-dúzia de pessoas, uma livraria, dois alfarrabistas, um ou outro cinema. Há coisas que deixamos para trás, há sempre imensas coisas que deixamos para trás - mas para quem, como eu, faz da memória o seu lugar preferido, abandonar é uma arte que deve ser elevada ao mais puro acto estético (e também ascético: há algo de zen em saber vir embora).
Mas faltam coisas, claro. Livros, discos, sítios. Faltam-me cafés. Não se abdica de uma vida inteira de cafés assim de um momento para o outro. Apaixonei-me por pessoas em cafés. Apenas por vê-las passar. Não que alguma vez as tivesse chegado a conhecer - apaixonei-me apenas pela vida que lhes inventei. Sinto saudades do ceuta às Sete da matina, às segundas-feiras e às terças, quando me levantava cedíssimo para acabar trabalhos que tinha de entregar naqueles dias. Era o primeiro a chegar, traziam-me de imediato um café e o Público, depois o croissant com queijo prensado (ainda não apanhei um tão bom cá em baixo - tenho saudades disso). Só uma hora depois é que abria o laptop e começava a trabalhar. E tenho saudades dos sábados: aparecer no café lá pelas dez, comprar os jornais todos, passar na Leitura, comprar dois livros, passar na Fnac, comprar dois discos. Voltar ao ceuta, almoçar, ir ler e ouvir os discos, sair à hora do jantar - para o ceuta, claro.
(Saudade é uma palavra que detesto. Há sempre harmonia ou horror no passado - nunca nada de intermédio. Já dizia Marc Augé que o esquecimento é tão importante quanto a lembrança. Ocorre-me agora que sinto falta dos livros do marc Augé.)
O mar. Ir à foz ao fim da tarde. Ouvir S. a tarde inteira antes dela decidir que eu era moralmente reprovável (opinião que eu partilho). E depois voltar cedo, passear nos jardins de Serralves. Reparo agora que do sinto falta é da liberdade que o conhecimento de uma cidade permite. Quando se conhece uma cidade de uma ponta à outra há sempre onde ir - e acima de tudo há sempre outra forma de ir.
Lentamente vou percebendo não como se move esta cidade mas como me mover nela. Conhecendo recantos que sabem a casa. Ganhando um certo prazer em passar na Ler Devagar e abrir um livro ao acaso e ficar lá horas. Em ir a um ou outro cinema à noite, sozinho, perdendo-me por ruas que hei-de demorar anos a decorar, perdendo-me ao sabor da gasolina que resta no depósito. Descobrindo onde comprar jornais ao fim-de-semana (parece ridículo, mas estive dois meses sem ler jornais ao domingo).
O Porto agora é memória. Sei que é por aqui que vou ficar. Conheço os rostos que me interessam. Amo mais o Porto, agora. Tenho-lhe um afecto distante, carinhoso - ao passo que antes era amor e ódio (costumava-me referir-lhe como "a cidade que nos fode a vida" - quão idiota isto me parece agora...).
Mas do que sinto mesmo falta é de um certo livro de Luís Miguel Nava que gostaria agora de citar.
(E acabo de perceber que não sinto saudades do Porto. Sinto é falta da Lisboa que ainda não pude conhecer.)
I Hope That I Don't Fall in Love with You
Well I hope that I don't fall in love with you
'Cause falling in love just makes me blue,
Well the music plays and you display your heart for me to see,
I had a beer and now I hear you calling out for me
And I hope that I don't fall in love with you.
Well the room is crowded, people everywhere
And I wonder, should I offer you a chair?
Well if you sit down with this old clown, take that frown and break it,
Before the evening's gone away, I think that we could make it,
And I hope that I don't fall in love with you.
Well the night does funny things inside a man
These old tom-cat feelings you don't understand,
Well I turn around to look at you, you light a cigarette,
I wish I had the guts to bum one, but we've never met,
And I hope that I don't fall in love with you.
I can see that you are lonesome just like me, and it being late,
You'd like some some company,
Well I turn around to look at you, and you look back at me,
The guy you're with has up and split, the chair next to you's free,
And I hope that you don't fall in love with me.
Now it's closing time, the music's fading out
Last call for drinks, I'll have another stout.
Well I turn around to look at you, you're nowhere to be found,
I search the place for your lost face, guess I'll have another round
And I think that I just fell in love with you.
(Claro, entre razão e coração, a gente escolhe sempre a segunda. Ou seja: prefere o verso final. Lembras-te deste disco?)
Tiro certeiro do Rui. Eu cá ia-me rir à gargalhada quando o intermitente fosse um mero repetidor do barnabé.
Pior que isso. É mesmo uma enorme filha de putice.
Claro que este post não é notícia. Que isto de se ser crescido tem muita coisa boa, mas vai-nos roubando tempo. E que me tenho visto arredada de extensas leituras bloguísticas mas, num período a que me forcei de pausa no trabalho, calhou ir mostrar o meu pipi a um colega de trabalho: vai daí descubro que o blogger anda relapso. Claro que toda a gente já sabia disto, mas porquê? Porque desapareceu o jovem?
Eu nem era indefectível, mas admito a inteligência dos textos e, em muitas ocasiões, a sua piada certeira. Em bom rigor é daquelas coisas que temos em casa, que nem usamos muitas vezes, mas que é confortável saber que estão lá e que nos faz confusão quando faltam ou acabam.
"crawling
I don't know where to or from
Weel, the center of things
from where everything stems
is not where I belong"
É sempre um bom dia para cantar isto...
"Nenhum amor foi vão
se deu fruto"
Sebastião da Gama (in "Pelo sonho é que vamos").
Há dias em que todas as palavras são como vidro moído na garganta.
O que nós tinhamos dito aqui confirma-se aqui. É chato, apesar de continuar a achar que não vou sentir a falta de nenhuma delas.
Contudo é cada vez mais preocupante a concentração nos media portugueses.
Durante muitos vivi na mentira. Tinha ambições simultaneamente revolucionárias, artísticas e intelectuais. Escondi coisas a meu respeito. Depois, graças a deus, passou. Com o tempo aprendi a desejar apenas uma só coisa: ser pateta. De preferência com alguma graça e não muito pobre. Mas, ainda assim, pateta.
Terei, eventualmente, aprendido a não me levar muito a sério - mas há um direito, conquistado a ferros, que faço questão de ostentar.
É que durante muitos anos disse mal deles. Fazia parte das minhas pretensões. Rapaz provinciano por excelência, assolavam-me complexos de culpa. Dou graças aos deuses por ter tido sempre o bom gosto de pensar pela minha cabeça - seguindo os cronistas certos; ou, neste caso, os críticos de música de melhor gosto. Eles deram-me a fé que me faltava, encorajaram-me a libertar-me deste sufoco.
Rapaz provinciano por excelência, passei do oito ao oitenta. Passei a dizer alto e bom som que os adorava. Ostensivamente.
Mesmo assim, havia uma certa ironia nesse acto. Dizia que os adorava, mas mesmo assim falava deles quase como muitos falam dos seus guilty pleasures.
Hoje não. Tantos anos de cidade fizeram-me reconciliar com as origens da província e voltei a apreciar a simplicidade rural da infância. Voltei a gostar só por gostar.
Sem procurar saber porquê. Amar, apenas, parece-me uma tarefa suficientemente grande. E questionar os amores só por questionar soa-me a arrogância - não tenho o conhecimento, o método, a paciência. Tenho uma única ambição na vida - a de ver a minha rainha dançar todos os dias, epla manhã.
Hoje posso dizer sem qualquer ironia que os ABBA são a melhor banda pop de todos os tempos depois dos Beach Boys. Isto não é uma blague. Isto é a verdade.
Toda a infelicidade do mundo foi causada pela ainda não existência dos ABBA, toda a infelicidade do mundo posterior ao aparecimento dos ABBA foi (é) causada por défice de escuta dos ABBA.
Porque uma canção dos ABBA é como uma boa queca: incha-nos o peito durante uma semana inteira, deixa-nos cheios de orgulho (não é a namorada que é perfeita para nós; somos nós que somos bons; não são os ABBA que são bons; somos nós que somos tão bons que até vemos neles a qualidade que os outros confundem com lixo).
Uma canção dos ABBA é o cigarro à hora exacta, a tacada de snooker que marca e deixa a branca pronta para acabar o jogo, é o café perfeito às oito da manhã quando o dia começa a ficar claro e o nosso cronista perfeita acerta com as palavras no coração do afecto no exacto instante em que o sol raia, é coado, torcido, ampliado pela janela e vem aninhar-se no peito.
Uma canção dos ABBA é a Carolina a olhar para mim e a dizer, pela primeira vez na já tão longa vida dela: tio.
Uma canção dos ABBA é o teu sorriso pela matina, minha rainha.
O melhor do mundo são os ABBA e não consta que JC gostasse de música experimental.
É por isso que, se não te opuseres, um dia eu direi, diariamente, ao nosso filho:
ouve os ABBA, pequenino sujo, ouve os ABBA...
Em vez de dizerem adeus, optem por:
- até um destes dias - em ponto.
(O "em ponto final funciona às mil maravilhas. Cria suspense. escusam de agradecer.)
"Visto de perto
ninguém é normal"
(Não, isto não é sobre Avelino Torres e o CDS. Esses percebem-se ao longe.)
FJ Viegas escreve isto:
"Eu não sofro com estados de alma. E, já que se trata de falar disso, nunca na blogosfera; o «intimismo» não significa «demasiada intimidade»."
Nunca há, caro Francisco, demasiada intimidade. Nunca se conhece ninguém pela escrita. E há um espaço da partilha (que não é partilha alguma, porque mesmo aqueles que optam por uma escrita acerca da intimidade - e aí concordo consigo: é diferente escrever-se sobre a intimidade ou escrever-se intimamente - sabem, pelo menos se tiverem um mínimo talento de escrita, onde acaba a vida e começa a literatura) de palavras que podem ou não ter ligação com o real, há um espaço - que pode ser usado como suposta abertura à intimidade - que não tem obrigatoriamente de chocar pelo seu despudor.
Não consigo perceber este tipo de queixas que o FJV faz. Não consigo porque acho que da mesma forma que se pode discutir política pode-se também escrever apenas. Se quem lê crê que o que se escreve é verdadeiro (pode sê-lo ou não; que interessa?) isso é com quem lê. Não há intimidade alguma aqui. Mesmo que a pessoa A pusesse em rede as fotografias do marido e dos filhos não haveria devassidão, não haveria violação de espaço nenhum. É que tudo depende da forma como essa intimidade é tratada. Do carácter literário das palavras. Do lado efabulatório das palavras.
(Pergunto-me se quando o Francisco reproduz poesia ou fala de um escritor que gosta não estará a devassar mais a sua intimidade do que alguns de nós que aparentemente escrevem sem pudor sobre si próprios.)
Contar. O que importa é, apenas e só, contar.
O que se conta é de somenos importância. Se assim não fosse não existia literatura.
Por instantes, ao ler FJV, lembrei-me de Platão a querer expulsar os poetas do templo.
Nem todos podem sê-lo, claro. E é bem verdade que a má literatura devia ser considerada crime (eu seria o primeiro a sofrer com isso - continuaria a escrever o que bem me apetecesse). Nem todos podem sê-lo - mas têm o direito de tentá-lo.
Mas no fundo o que mais impressão me causou foi apenas isto: "Eu não sofro com estados de alma."
Então sofre com quê, Francisco?
Estava aqui a pensar com os meus botões que, se calhar, o melhor nome em português de gema para blogosfera talvez fosse receitosfera...
É que culinariosfera é demasiado comprido.
Esse foi, por acaso, o primeiro disco do Tom Waits que ele comprou. E, se ele tivesse coragem - e essa canção não lhe lembrasse a irmã - ele poderia contar-te quantas horas passou a ouvi-la e do quanto sonhou com esse nome. Ele lembra-se do que ouvia na altura: Nick Drake, My Bloody Valentine, Sebadoh ("I think our love is comin'... to an end" - quantas vezes cantámos isto, querida?), os Fall, salvo erro. Lembra-se que era Outubro. Ele odeia Outubro. E Abril. Ele odeia Abril, porque "Abril é o mais terrível dos meses/ gera lilases na terra morta". E Elliot - também odeia Elliot.
(em Outubro, num qualquer Outubro, ofereceram-lhe essa terra morta. Noites de insónia e a loucura a penetrar pelas frinchas do contraplacdo do sótão, os mortos nascidos na boca. Ela saía de manhã e deixava-lhe o horror da doença por companhia. Depois ele envelheceu repentinamente. As janelas estilhaçaram na garganta, a rede ficou menos apertada para o mal diário, o filtro não coava o afecto. O médico disse: tem de levar tudo muito devagarinho, começar do zero. É como se você nunca tivesse existido e agora tem de reaprender tudo.
É como se nunca tivesse existido e agora tenho de reaprender tudo, cada gesto tornando-se gradualmente mais lento
voltar para casa e assistir ao lento suicídio de um velho
ele via como ele fugia aos medicamentos
juntos na fuga aos medicamentos
um a querer que o coração falhasse
medo de um dia a bexiga não reter a urina e da dentadura que caía enquanto almoçava
todos os dias bife de vaca e batatas fritas e dois finos que o deixavam ébrio para que o mundo fosse ainda mais lento e menos acre
a urina a escorregar-lhe pelas pernas abaixo
outro a querer que a cabeça lhe falhasse
imaginar-se dentro de uma sala branca sempre em silêncio
nem uma janela
olhar para o lá para fora que não havia e imaginar no espelho das paredes brancas a paz
do restaurante a telefonarem-lhe
venha buscar o seu paizinho que ele não está bem
ele a explicar
não posso, não tenho força, não consigo
não posso porque ele nunca me explicou os pássaros
não posso porque ele nunca me explicou os pássaros.)
Gradualmente passou. Afastou-se, não deixou entrar ninguém. Mudou de cidade duas vezes, deixou de lhe telefonar, fez de conta. Convenceu-se de que não tinha fam..., voltou a pegar na caneta, anda há anos com o mesmo romance às voltas.
E ontem, por mero acaso, pegou no disco dos Silver Jews e percebeu que a última canção não era uma canção de amor, mas sim de morte. Chama-se "Death of an heir of sorrows". Ouvia essa canção enquanto pensava que uns morrem enquanto outros geram os que virão em sua vez. Lembrou-se dela e de como gostaria de a levar a casa, ao velho moribundo, para que ele sorrisse uma última vez. Pensou nos filhos que cresceriam sem avós e explicar-lhes que não são diferentes dos outros. Pensou no velho alucinado deitado na cama. Dizer-lhe: vai em paz. Não te esqueceremos. Nunca a levará, claro - Deus oferece a cobardia aos loucos para que a usem nos momentos certos, Deus oferece as palavras para que possamos guardar o silêncio. Pensou em dizer-lhe o que amava nesse canção que ela tanto gostava. Não disse. Nunca dirá.
Levantou-se, pegou na geropiga e brindou a ti, meu velho. E aos pássaros que nunca lhe ensinaste. E desejou-te paz.
("when I was summoned to the phone
I knew in my bones you'd died alone
I have not avoided certainty
it has always just eluded me
I knew in my bones that you had died alone
I wish I had a new pair of boots but mostly I wish I was with you
so let's just call it the death of an heir of sorrows"
Silver Jews)
"when my love comes to see me it's
just a little like music, a
little more like curving colour (say
orange)
against silence, or darkness . . . .
the coming of my love emits
a wonderful smell in my mind,
you should see when i turn to find
her how my least heart-beat becomes less.
And then all her beauty is a vise
whose stilling lips murder suddenly me,
but of my corpse the tool her smile makes something
suddenly luminous and precise
- and then we are I and She . . . .
what is that the hurdy-gurdy's playing"
e.e.cumings
(thank you, K.)
Que tenho um amigo que é tal e qual o Tim Robbins?
... que torço por todos os meus amigos que estejam apaixonados...
As ervas daninhas também crescem; é a prova de que se pode chegar a grande sem deixar de ser mau.
Jean-Paul Sartre, in As Palavras
"Ansioso?
E como não?
Não estaria quem pisasse um desconhecido chão?"
in "O fugitivo", SG
- a questão é que o chão não te fugirá.
Devo dizer-te que não sei como me perdoar. Perguntava-te (entre a estática das linhas) se conhecias mais algum caso assim e tu respondias-me que não, que só era possível connosco.
(imagino-te sentada num banco de jardim a olhar para os sapatos a brincar com os sapatos na terra não terra não aí não há terra a brincares com os sapatos e a pensares aqui não há terra sentada no banco de jardim de olhos fechados)
Devo dizer-te que a resposta me assustou mais do que me alegrou: no que depender de mim, algo original só pode dar bronca (e lá fica a citação ao único filme do spike Lee que não é profundamente demagógico e reaccionário).
(imagino-te irritada a ler a piada ao Spike. Desculpa, não consigo evitar.)
Mas eu estava enganado. Lembrei-me ontem, ao dar uma volta pela (também tua) colecção de CDs: Ingrid Chavez e David Sylvian.
Exactamente assim. Ainda dura.