
Por Este Rio Acima é vulgarmente considerado o melhor disco de música popular portuguesa. Ainda bem, diga-se, que assim é. É bom para o Fausto, é bom para a música portuguesa, é bom para quem o diz, é bom para o país. O álbum, ou antes, o duplo álbum, conta a história de Fernão Mendes Pinto, que, como sabemos, andou vinte e um anos embrulhado em aventuras extraordinárias lá para as terras da Ásia longínqua, vindo depois acabar os seus dias a escrever as memórias ali para os lados do Pragal, em Almada, nos finais do século XVI.
Se outro mérito o disco não tivesse, poderia pelo menos dizer-se que se trata de um contributo notável para fazer chegar ao maior número de pessoas a história contida no livro de Fernão Mendes, Peregrinação. Não se trata, claramente, de uma façanha de somenos importância. O ensino da língua, da literatura, do português, só tem a ganhar com isso, logo, nós também, enquanto povo. Até porque aquela história, a do Fernão, é tanto a nossa, mas tanto tanto que até o ensino da história por ali passa, ou podia passar.
Mas adiante, que não era por aqui que eu queria ir... o que eu quero dizer, e como estou em minha casa estou à vontade, é que este disco, como todos sabem (faz parte da cultura geral do português médio não é? - "português médio", ora aqui está uma expressão que detesto), é o primeiro capítulo de uma trilogia que Fausto anunciou e que está ainda por completar, isto apesar de Por Este Rio Acima ser de 1982 e Crónicas Da Terra Ardente, segundo volume da dita trindade, de 1994.
Ora isto leva-me ao tema deste mísero post: para quando o terceiro e final capítulo da saga e o que esperar dele?
Bom, analisemos as duas obras (primas) já existentes e tentemos extrair delas as respostas que escasseiam.

Por Este Rio Acima é disco de água. É disco de mar, de rio, de água. De naufrágios. De sangue e guerra claro, mas sobretudo de água, de mar alto...
"o escuro é muito grande, o tempo é muito frio, o mar é muito grosso, o vento é muito rijo, as águas são cruzadas, as vagas levantadas"...
O que é verdadeiramente admirável, e revelador de génio, é que pelo meio dos grandes quadros de acção que Fausto pinta, que seriam já de si dignos de realce, há sempre uma atenção ao detalhe, ao pormenor, um tratamento minucioso do tecido das emoções mais profundamente humanas que podemos sentir (oiça-se Como Um Sonho Acordado e arranje-se um substituto melhor para a palavra medo, tente-se e fracassa-se - essa canção é, para mim, o outro nome do medo). Mas findo o disco, terminada a aventura, a série de tormentos a que se escapou com vida, tantas vezes suspensa por fios, enterrada nos lodos, ao sabor das correntezas pejadas de caranguejos e peixes carnívoros, atavões e mosquitos, há um elemento natural que tudo emoldura: a água. O mar.
Saltemos então doze anos. 1994. Crónicas Da Terra Ardente.
Assim de repente, só pelo título, pensa-se: terra. Terra. Ok, outro elemento: terra. Bom, se ao segundo volume da trilogia temos terra, então o que virá no terceiro? Ar? É claro: ar. Talvez Fausto esteja a trabalhar a aventura de Gago Coutinho e Sacadura Cabral para o terceiro disco da trilogia... talvez... mas antes de se tirarem conclusões fáceis, analisem-se as Crónicas.
Trata-se, convém dizer, da adaptação da História Trágico-Marítima, uma antologia de literatura de naufrágios dos séculos XVI e XVII, da autoria de Bernardo Gomes de Brito, já no século XVIII (1735-36). Os textos recolhidos no livro vivificam os acontecimentos reais que descrevem, e foram escritos por sobreviventes dos ditos infortúnios... má fortuna.

E as canções do disco, a matéria que aqui verdadeiramente nos importa? Bom, essas vão discorrendo sobre temáticas semelhantes às de Por Este Rio Acima. Subitamente, avistamos terra, o elemento, por um canudo. A água, mais uma vez, toma papel central na narrativa. Ao som do mar e do vento, à deriva, contemplando o céu por inteiro ou lutando pela vida quando se dobra a ponta do cabo, a chusma salva-se como pode das tormentas do mar. Sempre o mar, furioso, mas que ainda assim, adormecidas as fúrias, se entrega todo em ofertas de infinitas riquezas aos náufragos que sobrevivem para contar a história. De facto, creio poder dizer que razo a verdade à tangente se afirmar e jurar aqui a pés juntos que O Mar é das mais belas canções que Fausto alguma vez compôs. A guitarra sibilina, a voz cristalina debitando o riquíssimo poema
"de um remo fizeram o mastro, e a enxárcia de uma linha"
tornam os 6'23'' de O Mar uma experiência de quietude profundamente inesquecível. (Atenção, note-se que digo isto conscientemente. Ou seja, eu sei que a canção seguinte é Recado A Sofala, mas quanto a essa digo apenas o seguinte: é a mais bela canção do mundo)
Mas esta canção é também importante por outra coisa: o vagabundear pela praia, o desamparo, o desalinho de sentimentos e ao mesmo tempo, depois do turbilhão, aquele sentido de profunda sincronia com os elementos, tão profunda que inebria. Esta noção, este assentar de pés na terra, mesmo que nas mais turvas circunstâncias, é essencial para a viragem que se dará a seguir.
Onde se bordeja a terra... o continente...
Cuspidos pelo mar, os nossos heróis, homens como os outros entregues às tristes circunstâncias da fortuna, ou da falta dela, assentam pés em terra e os barcos vão ficar para trás. Daqui para a frente seguir-se-á bordejando terra, tacteando as serranias e as matas. Ora era aqui mesmo que eu queria chegar. O segundo disco de Crónicas Da terra Ardente pode muito bem conter em si o sinal, a chave, daquilo que nos espera no capítulo final: agora sim, terra.
Repare-se, a segunda metade das Crónicas, descontando o humor de A Caçada e o desenfadamento dos tormentos dos mares, pela contemplação da beleza feminina, de A Explicação Das Flores, é quase toda ela arrasadora. Em Diluídos Numa Luz, ensaiando de forma perfeita novos caminhos para a música de Fausto, a dor adquire contornos místicos profundamente tocantes. A Tua Presença é um assombro e a saudade cristaliza-se por alguns instantes entre os nossos ouvidos - se fecharmos os olhos vêmo-la. Levantando-se o arraial relaxa-se um pouco mas logo Os Soldado De Baco repõem tudo nos eixos com a sua sangria desenfreada. Segue-se outra carnificina em Pela Fome Comidos e chega-se a outro tesouro - Manuel de Sousa Sepúlveda. Numa palavra - tragédia. Não digo mais nada por respeito ao sofrimento que ali se descreve. E que dizer de A Travessia II? Nada, não digo nada: oiça-se apenas. O que aqui temos é o homem abandonado a um estado impossível de imaginar ou quase
"o que sinto ainda é aquele cheiro agoniante da baba pegajosa e pestilenta que escorria lentamente das queixadas dos chacais,
o resto são sombras de coisa nenhuma
não recordo mais nada
não me lembro de ninguém
não me lembro de pessoa alguma
o que foi que me aconteceu
minha vida
o que foi que me aconteceu"
parece afinal terminar tudo assim... tendo chegado ao outro lado do mundo em nome de algo maior que a vida... apenas para nos esquecermos dela? para esquecer o que é um homem? onde foi que nos teríamos perdido? o que é um homem? o que é um homem?...
Este disco é pelo menos tão genial como Por Este Rio Acima. Não o reconhecer é uma injustiça do tamanho do sol.
E termina-se tudo a seguir, Ao Longo De Um Claro Rio De Água Doce, cheirando a oregãos, fetos, agriões, poejos, malvas, alecrim... alecrim...

História Trágico Marítima, Vieira da Silva, 1944

O que lá vem então? Não sei. Sinceramente não sei. Mas dado que me parece que a odisseia segue da forma como aqui a descrevo, isto é - mar, orla continental e terra - gosto de pensar que será uma aventura gigantesca sobre o homem perdido no coração das trevas. Se possível uma carnificina, uma sangria sem igual. Profundamente no coração das trevas - um novo De Angola À Contracosta, de Capelo e Ivens, mas em formato disco e provavelmente com muito mais sangue. A trilogia, no seu todo, é o nosso Apocalipse Now, só que muito melhor. Já assim, como está, mesmo incompleta, é melhor. Com o que Fausto vier a fazer no último capítulo será muitíssimo melhor.
Quando? Não sei mas 2006 agrada-me. Se assim fosse teríamos os três discos produzidos em vinte e quatro anos, separados cada um deles de doze anos entre si. Não é por nada, só porque sim, porque era bonito... não liguem, estou a mentir. Na verdade eu queria que fosse em 2006 porque é já para o ano que vem. O quê que querem? Sou um garganeiro é o que é!
Uma coisa é certa: será quando for... mas será magnífico.
Publicado por ns em junho 4, 2005 04:43 AMGostava de poder ter escrito integralmente este post, se para isso tivesse engenho. Assim, apenas deixo ficar o meu aplauso com ambas as mãos.
Afixado por: jrd em junho 5, 2005 11:09 PMBem, n me vou alongar (por enquanto) por ter falta de tempo, mas aqui vai:
Eu tenho na minha ideia q o terceiro volume da trilogia seria o Despertar dos Alquimistas.
E por uma série de razões das quais destaco uma ou outra.
É q, se por um lado, no Por este rio.. tínhamos, e muito bem, um disco de água, se nas Crónicas... temos um disco mais terra, o Despertar, é, penso eu, um disco "suor", tido aqui como aquilo q exala da qualidade de ser-se humano através dessas tropelias, do amor, da acção humana, enfim, do viver.
É q, nitidamente, o Despertar é um disco demasiado humano, sensual, onde se fazem vários elogios do amor, sob diversas formas. A faixa 1 é um elogio de amor (à pátria, a meu ver, mas bem podia ser outra/o o/a visado/a); o Corações, sentidos... é um outro; O Delicadamente para ti... então nem se fala - um amor sacana, boémio.
Bem, e para n me alongar demais, eis a ideia base, q um dia, com mais tempo, desenvolverei: o terceiro volume da trilogia existe, e chama-se Despertar dos Alquimistas!
(e por favor, comentem-me isto - o post e o meu comentário - , porque acho q está na altura de começar a haver uma exegese de Fausto, à semelhança do q se faz com outros grandes poetas portugueses!)
Nuno,recordo-me que quando sairam as "Crónicas da Terra Ardente", Fausto anunciou-o como o segundo volume da trilogia, foi referido até o atraso de dois anos, pois o previsto em 1982 era compor cada uma das partes do tríptico de 10 em 10 anos; o "Despertar dos Alquimistas" parece-me mais um ensaio ou até algum refugo (sem querer diminuir o álbum) de coisas do "Por Este Rio".
Mas 2006 parece-me ser uma óptima altura para que saia a chave da trilogia, seja de Angola à Contracosta ou sobrevoando o Atlântico Sul até ao Brasil, a vontade de ouvir é muito grande.
Afixado por: MBP em junho 7, 2005 10:15 PMPois, de facto não é a questão da qualidade do álbum em si - O Despertar Dos Alquimistas é um disco fantástico, mas na realidade não é o terceiro volume da trilogia de que o Fausto tem falado nas suas entrevistas ao longo dos anos. Quanto a poder tratar-se de um álbum conceptual seguindo a linha que o Nuno avança, é possível... agora que é uma colecção de canções estupendas, lá isso é.
E que dizer daquela abertura, daquela primeira canção "A Memória Dos Dias"? Trata-se de um caminho musical, porventura menos popular, que Fausto não explorou ainda totalmente (nem nada que se pareça) e que, a avaliar pela amostra, poderia dar frutos apetitosos.
Eu, por mim, desejo postar aqui na Laranja um texto sobre a obra de Fausto, disco a disco... assim o tempo livre me abençoe com a sua graça...
Saudações,
ns
Ainda bem que se fala e escreve sobre Fausto. Muita gente desconhece a sua obra magnífica e não o sabe ouvir... Penso que não tem o reconhecimento que merece.
Há pouco, quando comprei os bilhetes para o concerto no Coliseu, a menina da bilheteira perguntou à pessoa que se seguia: "Também é para o Fausto?"
Tive de engolir o seguinte comentário:"Não, esse senhor, eu dispenso".
Que ignorância! Como é possível?!
Eu estou a redescobrir Fausto. Cresci a ouvir, em viagens longas de carro, nas cassetes gravadas do meu pai, Navegar, Navegar, as Crónicas de Diogo Soares e Por Este Rio Acima.
Em crianças gostamos das músicas pelo que soam, e não pelo que dizem - e aquilo soava-me bem! O cariz tradicional e os coros masculinos dão-lhes uma envolvência especial.
Há uns anos - poucos - voltei a pegar nas velhinhas cassetes - que quase não tocam - e decidi prestar atenção ao que diziam as letras. Uma das minhas preferidas era (e é), sem dúvida, Por este rio acima e qd, realmente, ouvi a letra... assustei-me! - só agora percebi que o objectivo era mm esse... - está mt bem conseguido!
Além das ditas cassetes, há tb cá em casa, as Crónicas da Terra Ardente e o Grande, Grande é a Viagem. Portanto, para mim, Fausto era, sobretudo, letra marítima e sangrenta com uma envolvência musical mt própria.
Com o concerto do mês passado reaproximei-me e estou, agora, a descobrir que há mais além de todo aquele mar e todo aquele sangue, e que estes fazem parte de algo maior.
Continuem a falar!
Afixado por: cristina em julho 10, 2005 06:30 AMComo é evidente a música que evidenciei no comentário anterior não é "Por Este Rio Acima", mas sim, como devem ter percebido, "Como Um Sonho Acordado". [Isto já era o sono a fazer efeito...]
Afixado por: cristina em julho 10, 2005 06:36 AMai ai cristina... então? tens de te deitar mais cedo :)
Afixado por: ns em julho 10, 2005 12:09 PMTenho de fazer por isso, tenho... - até pq tb tenho de me levantar cedo!
Vim cá parar qd passeava pelos links de um outro blog e achei o "cantinho" do Fausto demasiado tentador para deixar passar em branco! - mas faz-se o que se pode...