dezembro 31, 2004

um post faustoso...

na quarta-feira propus-me um desafio gigantesco, dificílimo, praticamente impossível. qual? fazer uma compilação do Fausto... sim, fazer uma compilação do Fausto mas diferente das que já tinha feito, normalmente para amigos ou familiares. esta, como era para mim, não tinha como objectivo, desde logo, dar a conhecer a sua obra... usualmente procuro alinhar as canções mais festivas, para agarrar os “ouvintes”, e uma ou outra mais introspectiva mas ainda assim mantendo-me sempre dentro dos “clássicos”. não era agora esse o intuíto – era mais o contrário, baladas (?), canções introspectivas, virar Fausto para dentro e, claro está, virar-me a mim também.

a juntar a isto, a coisa devia funcionar como uma espécie de homenagem ao poeta Fausto – sim, há grande poesia que vive sem música nas suas canções – e devia também seguir rio acima, tempo acima, até à nascente. desejava ainda que fosse uma coisa plana, orografia plana, sem explosões, um longo e “claro rio de água doce”.

o alinhamento, o resultado, é sublime, mesmo sabendo que hoje, provavelmente, poderia fazer algo ligeiramente diferente, não melhor ou pior, diferente apenas. segue então a lista, com pequenos comentários:

1. Canto dos Torna-Viagem (ao Fausto) (José Mário Branco – 2004)
- a óbvia homenagem dentro da homenagem... faustosa canção que é a melhor maneira de associar Fausto a 2004... ano de partida da viagem-compilação...

2. A Penumbra da Claridade (2003)
- sob a mágoa destes dias trágicos a interpelação ao silêncio cósmico, ao abismo dos céus... nada... põe-se até em causa a inexistência de deus “na paz da mansidão do universo”... confortável morada presumo...

3. O Mar (1994)
- “e todo o mar se cobriu de infinitas riquezas”... e segue “adoçado da sua bravura, o mar”... a voz sibilina, a guitarra tão clara que arrepia... cá andamos, “náufragos dispersos” e a sua “música escorre dos céus, devagar”...

4. Recado a Sofala (1994)
- um clássico absoluto de toda a música portuguesa... penso nela apenas como um nome mais comprido para uma palavra tão complicada – perfeição... as vozes que aqui embalam a tristeza e o infortúnio são de outro mundo... encantam multidões... “perdidos à sede que a febre consome, levados assim à morte de fome”... segue a canção numa calma bruta, cravada no firmamento...

5. A Tua Presença (1994)
- canção para se estar só como se está, quietamente, ausente, assim ao abandono de tudo...

6. A Travessia II (1994)
- ladaínha na primeira pessoa... ao piano... sussurro invocativo da tormenta... “o que foi que me aconteceu, minha vida, o que foi que me aconteceu”...

7. Quando Eu Morrer (1989)
- poema de Alexandre Dáskalos e música de Fausto para a belíssima canção que fecha o passo ao lado que é “A Preto e Branco”... e mais uma vez o mar no peito, como tantas e tantas vezes...

8. Porque Me Olhas Assim (1987)
- ao piano um soberbo poema de amor e de saudade e um refrão eterno...

9. De Ocidente a Oriente (1987)
- depois disto o mundo já quase dorme em paz... “para lá das cordilheiras nasce o sol de outra nascente”... sublime madrugada nascida das entranhas da pedra...

10. Em Poucas Palavras (1985)
- sublimes arranjos de cordas aconchegam algumas poucas palavras e doces saudades...

11. Quando o Inverno Chegar (1985)
- é algo que rebenta assim como a vida pelo meio do “horizonte gelado do inverno dos neutrões”... não resisti, admito, não resisti e embora hajam aqui pequenas explosões, assim vistas ao longe são só pequenas colinas na enorme planície da viagem grávida de venenos...

12. A Noite dos Alquimistas (1985)
- “somos teus filhos, ó mar de estrelas, cuida-nos bem”... humildemente talvez seja só isto...

13. Como Um Sonho Acordado (1982)
- “tens medo dos vivos e dos mortos decepados”... medo, medo e medo “nas entranhas sinuosas entre as vísceras mordendo”... claro que haverá outras obras sobre o medo... a diferença é que esta não se limita a isso - esta é-o... e os coros catapultam-na para um plano absolutamente único na música popular portuguesa e das outras não falo... clássico absoluto, mais uma vez não resisti.

14. A Ilha (1982)
- outra canção mágica, uma ilusão... encantatórias as vozes cruzadas levam-nos “a alma a segredar, a boca a murmurar... adeus”...

15. O Que a Vida Me Deu (1982)
- a grande canção esquecida?... nunca ouvi ninguém elogiar-lhe esta canção como ela merece... viola acústica e piano e um poema do tamanho da vida... olhar para trás e ajustar as contas possíveis... mas sempre “esta dor que ficou”...

16. Atrás dos Tempos Outros Tempos Vêm (1977)
- “calados é que podemos cair”... sem dúvida... quase em “casa” apenas para partir de novo, porque “atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir”...

17. Não Canto Porque Sonho (1974)
- cá estamos na fonte... na origem (ou quase)... tudo estremece... e tudo contribui para isso, até a voz espectral de Zeca Afonso... tantos rios e mais esse... parta-se de novo que amanhã as canções serão talvez outras... e os fantasmas, por certo... a fonte, não era?

Publicado por ns em dezembro 31, 2004 03:28 AM
Comentários

obrigado por esta compilação :) é uma perspectiva, que vou tentar realizar em som :)

BOM ANO! Muito forte e saudável de preferência!

Afixado por: jm em dezembro 31, 2004 04:23 PM

Ass.:

A cobaia satisfeita.

Afixado por: cm em janeiro 2, 2005 11:08 PM

E para quando uma categoria só para Fausto? Com as letras, todas? Com um calendário de espectáculos? Com historial da vida e da obra?

Ou será que o queres manter assim..., no anonimato? Só para ti?

Abração.

Afixado por: M em janeiro 3, 2005 08:57 PM

E para quando uma categoria só para Fausto? Com as letras, todas? Com um calendário de espectáculos? Com historial da vida e da obra?

Ou será que o queres manter assim..., no anonimato? Só para ti?

Abração.

Afixado por: M em janeiro 3, 2005 08:59 PM

Só para dizer que gostei muito das escolhas, adoro-as a todas!
Sabes, muitas vezes ouço o Despertar dos Alquimistas como se fosse um disco novo, o "Noite dos Alquimistas" é uma coisa do outro mundo. Mas infelizmente nunca resultou ao vivo!
Grande abraço... colectivo ;)

Afixado por: dias em janeiro 3, 2005 10:31 PM

Delícia de selecção. Eu acrescentaria (comprava um daqueles cd's de 90 minutos) o "Homem e a Burla", a "Mariana das Setes Saias", o "Quasi Peninsular" e o "Corações, Sentidos Corações"...infinito este Fausto. Obviamente que a dita compilação iria ficar demasiado parada e triste...recomendo uma outra com o Fausto positivo que também, menos, anda pela obra. Já agora, presumo que não ande por aí um exemplar do primeiro álbum, não editado em cd, de nome Fausto ? Ah, acrescentava também o "Linda Pastorica", com a Né Ladeiras, do álbum "Trás-os-Montes". Esse também um miminho para os ouvidos.

Afixado por: nuno sanches em janeiro 5, 2005 05:24 AM