Vi o debate na CNN quase na totalidade - e digo quase porque perdi 3 minutos vendo a SIC Notícias, onde Nuno Rogeiro, João Costa Ribas e Paulo Camacho comentavam e traduziam o debate em tempo real.
Optei pela CNN porque na SIC-N, para além de não deixarem ouvir metade do que os candidatos diziam, ouvi Rogeiro dizer algo como "Kerry não é suficientemente forte e decidido e isso transparece para o povo americano". Rogeiro disse isto a propósito de uma intervenção em que Kerry se refere a Allawi dizendo que foi ele próprio que reconheceu que no Iraque entram todos os dias terroristas aos magotes. A sua ideia era simples: como Allawi nem sequer é um líder legítimo Kerry não devia caucionar nada do que ele diz. A meu ver Nuno Rogeiro não podia estar mais enganado em termos estratégicos. No debate não se discutia a legitimidade de Allawi, discutiam-se os resultados da guerra no Iraque, defendendo Bush que havia sólidos progressos, como tal Kerry desconstruiu essa ideia com o discurso do próprio Allawi. Podendo atirar ao tubarão não iria atirar ao carapau. Fez bem, enervou Bush e fê-lo entrar pela enésima vez no retorcido discurso de como o combate pela democracia estava a ser bem sucedido e por aí adiante, e isto num dia em que tinham morrido nada mais nada menos que 42 pessoas vítimas de ataques.
Obviamente não creio que Rogeiro torça por Bush, mas parece-me que a fasquia de exigência face a Kerry está colocada muito mais alto do que face a Bush. O facto de este ser um idiota não pode dar-lhe vantagens de tipo algum, antes pelo contrário.
E foi isso que aconteceu. De facto, Bush ateve-se a duas ou três ideias: "it's a tough work", "my opponent has inconsistent positions about the war in Iraq" e "you cannot lead when you´re sending mixed messages".
Uma das regras que todos os especialistas tinham definido para Bush era simples: não podia cair na repetição exagerada de slogans porque isso demonstra que não tem densidade alguma de pensamento (nem para intervenções de dois minutos).
Ora Bush repetiu mais de uma dúzia de vezes estas ideias, parecia um martelo perfeitamente perdido martelando onde calhasse as mesmas sentenças. E Kerry? Kerry não perdeu a compostura uma única vez. Rebateu sempre claramente, defendeu-se da ideia de inconsistência de posições muitíssimo bem, não se deixando ficar nas cordas à retranca e, acima de tudo, manteve sempre o respeito a Bush. Isso é muito importante porque num debate destes o povo americano não os vê aos dois no mesmo nível: um é apenas um candidato, o outro é o Presidente. Gore, por exemplo, segundo os analistas foi vítima de alguma arrogância própria nos debates de 2000 e Bush, nessa altura, era também apenas candidato.
Concluindo, a América percebeu ontem que tem uma alternativa à desastrosa administração Bush. Poderá, é claro, vir a ser vítima da máquina propagandística republicana mas isso são outros quinhentos, e é como diz o ditado: à primeira toda a gente cai, à segunda ou cai quem quer ou quem é burro.
Publicado por ns em outubro 1, 2004 03:11 PMPois eu tb vi o debate, e mim tb me pareceu que o Bush estava vacilante, nervoso, repetitivo e que o Kerry se portou mt bem... não percebi as notícias hoje divulgadas... em todo o lado se dizia que o resultado do debate foi um empate técnico... fiquei a pensar que das duas uma: ou é o meu sentido crítico ou é o dos senhores que fizeram tais comentários... um deles está avariado, concerteza...
Beijinhos
Olá Lia,
tem tudo a ver com um facto simples: estava-se à espera que o Bush derrapasse completamente, coisa que só aconteceu parcialmente. Como o tipo tem reputação de idiota chapado há uma certa tendência para considerar como empate tudo o que não seja uma derrota por Knock Out. É triste mas é verdade.
Fica bem,
ns