abril 22, 2004

DE COMO NÃO É RIDÍCULO SUJAR CAMISAS

Confesso que sempre tive medo do ridículo. Tanto que desde tenra idade me esforcei por parecer sempre o mais pateta possível. Irrita-me a palavra "verdade" ou "realidade", mas a "seriedade" dá-me arrepios. Só me levarei a sério no momento em que morrer, disto estou certo - mas paradoxalmente sempre tive medo do ridículo.

Por exemplo, quando tirei as rodinhas à bicicleta (e caí dezenas de vezes) fi-lo às escondidas de todos, para que ninguém se apercebesse do processus: o intervalo de tempo em que se dava a aprendizagem. E para evitar comentários sobre a mundança de voz, comecei a beber aguardente de manhã, todos os dias, desde os oito anos. Ao mesmo tempo, tentava imitar os discos do Tom Waits do meu pai - infelizmente alguns estavam riscados e até hoje não consigo dizer certas palavras em inglês sem as repetir quatro ou cinco vezes. E há quem diga que eu falo com um "certo grão estranho" na voz.

Tudo isto tem as suas consequências. Nunca joguei futebol, decorei demasiadas citações de Oscar Wilde, frequentei dezenas de prostitutas* de diferentes nacionalidades para treinar os diferentes movimentos congénitos a cada pátria, não fosse a rapariga com quem perdesse "oficialmente" a virgindade não ser portuguesa. Enfim, parece mais complicado do que realmente é.

Com as comidas por exemplo: a primeira vez que comi comida japonesa foi em casa de amigos. Não consegui evitar sujar a camisa. Senti-me ridículo. Nova tentativa (ainda em casa de amigos) e nova camisa destruída. Jurei nunca entrar num japonês.

Acabei por entrar, claro, há coisa de uns meses. Expus-me ao ridículo, tive de ser verdadeiro (aargh) e dizer"errr, eu não sei usar pauzinhos". Ensinaram-me. Devem ter-me ensinado bem, porque ao fim de um quarto de hora já eu versatilmente manipulava os meandros mais íntimos da mecânica de levar a comida à boca.
Como é óbvio, sujei-me. Pormenor dispiciendo, não se tratasse da minha camisa preferida, que eu usara apenas uma vez, no santo e católico casamento (ao qual compareci sob voto de protesto, porque não me parece correcto que um comunista e uma burguesa devam casar pela igreja) da minha santa irmã**.

Confesso que a camisa ainda está por lavar (isto parece uma canção do Chico Buarque, qualquer coisa deste género: "não lavei mais a camisa/ trago a nódoa/ junto a..." and so on and so on), só mais uma vez fui a um japonês, e continuo a ter medo do ridículo.

Mas já não tenho vergonha de decorar datas e não me importava de sujá-la outra vez.

* Isto é obviamente mentira, ok?
** Isto também.

Publicado por jb em abril 22, 2004 06:15 PM