
Há um magnânimo momento de delírio a roer-nos os intestinos nos últimos dias, de seu nome “Son of a gun”: depois de assobios e vozes cruzadas, um loop estranhíssimo abre caminho às vozes de Doseone e Why?, percussões alienadas, o rapanço dos dois MCs a devir numa espécie de balir, a quebra – e depois os órgãos saturados de mercúrio a liquidificar, até tudo acabar numa lista de homens assassinados e breakbeats em cascata por trás, com Doseone na sua imagem de marca (um metralhar quase inumano de palavras, como o se o sentido das palavras estivesse apenas na fluidez do dizer, como as palavras fossem usadas para abafar qualquer coisa e não para dizer), um drone de órgão, camadas de ruído. Dura dois minutos, uma assombração tóxica, uma nuvem de enxofre a subir pelas pernas acima deixando ligeiras pústulas.
E à 5ª canção (sim, são canções) sabemos: os cLOUDDEAD mudaram, começam a dar maior coerência ao habitual respigar de cacos do real, deixaram de colar com cuspo os estilhaços da estrutura canónica de uma canção para fazerem o todo fluir como uma espécie de bolo digestivo em perpétuo ruminar – mas continuam a fazer da alienação, do sufoco, da compulsão, do asfixiamento, da demência, do lixo das ruas com que se acorda na boca, das larvas dos cães vadios mortos na berma da estrada (literalmente; favor verificar “Dead Dogs”) e de todas as maçãs pobres que encimam o inferno dos sonhos americanos, ao 2º álbum os cLOUDDEAD mudaram mas continuam a transformar o desafecto no mais alucinado e belo dos pesadelos urbanos de hoje.
Tudo nos cLOUDDEAD é desde o início obsessivo (e no entanto auto-sarcástico), desapegado (e no entanto egocêntrico), massivo, sim, massivo. Mergulhar aqui é entrar em queda livre no centro da barragem – no exacto instante em que as comportas abrem. Basicamente, e caso o leitor nunca deles tenha ouvido falar, isto (não) é hip-hop. E (não) é vanguarda. E (não) é pop. E (não) é normal. Sim, há o “atmosferismo” de Eno a vigiar a melodia, a harmonia solar dos Beach Boys afagando a sobredosagem de ruído, a emulsão em morfina líquida (substância preferida de Deus) de uns My Bloody Valentine (importantíssimos para Odd Nosdam, o responsável pelos samples e terceiro elemento dos cLOUDDEAD) a contrabalançar o histrionismo dos MCs.
Aqui tudo está em constante alteração, cada nova partícula de som implode a frágil arquitectura sonora – e quando tudo está quebrado só resta colar os cacos e atribuir ao novo objecto uma utilidade máxima: em “The keen teen skip” há meia palavra de um garoto samplada, colocada em loop, flautas em transe, caixas de ritmos, órgãos empilhados. O que se segue é apenas Deus a nascer do lixo e a tornar-se música. Como a pop dissonante de “Rifle Eyes” (com as camadas de vozes a sobreporem-se até à alucinação e Doseone a mostrar que é hoje o maior MC do planeta). Como a pop (?) delicada e saturada e escatológica (“we secretly long/ to be part of a car crash”) de “Dead Dogs Two”, em que os dois MCs alternam quase palavra a palavra o microfone.
No mundo dos cLOUDDEAD pega-se na garrafa de tequilla, bebe-se até ao fim, trinca-se a larva, vem o torpor na nuca, o ardor nos olhos, parte-se a garrafa, pega-se no fundo grosso e coloca-se nos olhos à conta da miopia – e só duas horas depois (uma espécie de névoa na cabeça, todos os objectos a tornarem-se indefinidos) é que se atinge a lucidez. Falta aqui um tema como o sobrenatural “apt.A (2)” do primeiro álbum. Falta, se calhar, aquela noção de estarmos perante um objecto inacabado que tanto atraía na estreia – os cLOUDDEAD ainda são uma granada, mas hoje já não explodem – implodem. E é possível que este “Tem” fique a milímetros do primeiro. Acontece que apesar de tudo isso há mais ideias aqui, mais loucura controlada, mais limiar, mais luz negra, mais cruel ternura que em quase toda a pop (porque há muito que isto não é hip-hop) actual.
Parece que este é o fim dos cLOUDDEAD, que depois disto se seguirá a separação. Se assim for, o folk-indie-space-hop nasceu e morreu aqui. Combustão espontânea. Morte prematura. É isto a beleza dos cometas.