Bastavam duas canções para que valesse a pena: "New partner" (onde estás, C.?) e "Agnes, queen of sorrow". Mas ele tinha de ir pegar em temas escondidos que já nem ele próprio se lembrava e alterar tudo.
Bonni Prince Billy, heir of sorrows.
Arranca à memória as canções dos Palace e reescreve-as à maneira de Nashville. Pode parecer assustador - e às vezes, ao início, é-o.
Mas lembra-me uma semelhante operação de maquilhagem que a maior parte das pessoas não gosta - e eu amo. Lembra-me "Recent Songs" de Cohen, quando o canadiano errante resolveu barroquizar a sua música. A maior parte das pessoas detesta, eu amo o disco. Tanto que até repito a frase.
Nada disto teria o mínimo interesse, não fosse a grandeza de Bonnie Prince Billy.
Não fossem aquelas duas canções. (Não me parece que este seja o momento indicado para falar delas. Mas o silêncio, um dia, acabará, e poderei dizer da grandeza desses restos de enxofre benigno que carrego, cavidade auricular adentro, alvélolos afora, há tanto tanto tempo.)
Não fosse "No more workhorse blues".
A dada altura ouve-se uma voz nasalada. Dura. Granítica, feita de gravilha. Um ruminar de vazios. Voz estilhaçada pela sua própria impotência. podia jurar que está desafinada, ligeiramente fora de tom. Podia jurara - mas sou incapaz de cantar uma nota. Digo apenas que acredito que ele esteja ao lado da canção - porque ali não pode haver centro.
A voz é de David Berman, líder dos Silver Jews.
Não sei dizer de David Berman.
sei que estás velho, meu amigo. Que me pareces cansado.
E no entanto, a tua voz sobe. Não sei para onde.
E tu cantas, palavras que nestes dias de extrema violência, me parecem as mais falsas. As mais belas.
"I am no more
workhorse
I am a racing horse
I am your favourite horse
I am a racing horse"
Dóis-me, David (sabias?).
Há homens que planam. Outros rastejam. A maior parte senta-se e fecha os olhos.
Tu caminhas apenas.
You are my favourite horse.