Em apenas três meses em Lisboa passei de um falso cinismo para com a capital a um flirt à distância. Devagarinho vou começando a achar graça a isto. É sempre assim, claro. O que amamos das cidades são alguns lugares, meia-dúzia de pessoas, uma livraria, dois alfarrabistas, um ou outro cinema. Há coisas que deixamos para trás, há sempre imensas coisas que deixamos para trás - mas para quem, como eu, faz da memória o seu lugar preferido, abandonar é uma arte que deve ser elevada ao mais puro acto estético (e também ascético: há algo de zen em saber vir embora).
Mas faltam coisas, claro. Livros, discos, sítios. Faltam-me cafés. Não se abdica de uma vida inteira de cafés assim de um momento para o outro. Apaixonei-me por pessoas em cafés. Apenas por vê-las passar. Não que alguma vez as tivesse chegado a conhecer - apaixonei-me apenas pela vida que lhes inventei. Sinto saudades do ceuta às Sete da matina, às segundas-feiras e às terças, quando me levantava cedíssimo para acabar trabalhos que tinha de entregar naqueles dias. Era o primeiro a chegar, traziam-me de imediato um café e o Público, depois o croissant com queijo prensado (ainda não apanhei um tão bom cá em baixo - tenho saudades disso). Só uma hora depois é que abria o laptop e começava a trabalhar. E tenho saudades dos sábados: aparecer no café lá pelas dez, comprar os jornais todos, passar na Leitura, comprar dois livros, passar na Fnac, comprar dois discos. Voltar ao ceuta, almoçar, ir ler e ouvir os discos, sair à hora do jantar - para o ceuta, claro.
(Saudade é uma palavra que detesto. Há sempre harmonia ou horror no passado - nunca nada de intermédio. Já dizia Marc Augé que o esquecimento é tão importante quanto a lembrança. Ocorre-me agora que sinto falta dos livros do marc Augé.)
O mar. Ir à foz ao fim da tarde. Ouvir S. a tarde inteira antes dela decidir que eu era moralmente reprovável (opinião que eu partilho). E depois voltar cedo, passear nos jardins de Serralves. Reparo agora que do sinto falta é da liberdade que o conhecimento de uma cidade permite. Quando se conhece uma cidade de uma ponta à outra há sempre onde ir - e acima de tudo há sempre outra forma de ir.
Lentamente vou percebendo não como se move esta cidade mas como me mover nela. Conhecendo recantos que sabem a casa. Ganhando um certo prazer em passar na Ler Devagar e abrir um livro ao acaso e ficar lá horas. Em ir a um ou outro cinema à noite, sozinho, perdendo-me por ruas que hei-de demorar anos a decorar, perdendo-me ao sabor da gasolina que resta no depósito. Descobrindo onde comprar jornais ao fim-de-semana (parece ridículo, mas estive dois meses sem ler jornais ao domingo).
O Porto agora é memória. Sei que é por aqui que vou ficar. Conheço os rostos que me interessam. Amo mais o Porto, agora. Tenho-lhe um afecto distante, carinhoso - ao passo que antes era amor e ódio (costumava-me referir-lhe como "a cidade que nos fode a vida" - quão idiota isto me parece agora...).
Mas do que sinto mesmo falta é de um certo livro de Luís Miguel Nava que gostaria agora de citar.
(E acabo de perceber que não sinto saudades do Porto. Sinto é falta da Lisboa que ainda não pude conhecer.)
Publicado por jb em março 6, 2004 02:46 AM"A boca
A boca, onde a memória
vem levantar fervura,
contrai-se, há quem a sinta
de súbito emergir da transparência.
O mar, há quem o faça
subir no encalço dela: é quando ao engolirmo-la a saliva
nos vai parar à memória
que todo o nosso coração fica à mercê das águas."
Luis Miguel Nava
Abraço nortenho,
A.F.