Durante muitos vivi na mentira. Tinha ambições simultaneamente revolucionárias, artísticas e intelectuais. Escondi coisas a meu respeito. Depois, graças a deus, passou. Com o tempo aprendi a desejar apenas uma só coisa: ser pateta. De preferência com alguma graça e não muito pobre. Mas, ainda assim, pateta.
Terei, eventualmente, aprendido a não me levar muito a sério - mas há um direito, conquistado a ferros, que faço questão de ostentar.
É que durante muitos anos disse mal deles. Fazia parte das minhas pretensões. Rapaz provinciano por excelência, assolavam-me complexos de culpa. Dou graças aos deuses por ter tido sempre o bom gosto de pensar pela minha cabeça - seguindo os cronistas certos; ou, neste caso, os críticos de música de melhor gosto. Eles deram-me a fé que me faltava, encorajaram-me a libertar-me deste sufoco.
Rapaz provinciano por excelência, passei do oito ao oitenta. Passei a dizer alto e bom som que os adorava. Ostensivamente.
Mesmo assim, havia uma certa ironia nesse acto. Dizia que os adorava, mas mesmo assim falava deles quase como muitos falam dos seus guilty pleasures.
Hoje não. Tantos anos de cidade fizeram-me reconciliar com as origens da província e voltei a apreciar a simplicidade rural da infância. Voltei a gostar só por gostar.
Sem procurar saber porquê. Amar, apenas, parece-me uma tarefa suficientemente grande. E questionar os amores só por questionar soa-me a arrogância - não tenho o conhecimento, o método, a paciência. Tenho uma única ambição na vida - a de ver a minha rainha dançar todos os dias, epla manhã.
Hoje posso dizer sem qualquer ironia que os ABBA são a melhor banda pop de todos os tempos depois dos Beach Boys. Isto não é uma blague. Isto é a verdade.
Toda a infelicidade do mundo foi causada pela ainda não existência dos ABBA, toda a infelicidade do mundo posterior ao aparecimento dos ABBA foi (é) causada por défice de escuta dos ABBA.
Porque uma canção dos ABBA é como uma boa queca: incha-nos o peito durante uma semana inteira, deixa-nos cheios de orgulho (não é a namorada que é perfeita para nós; somos nós que somos bons; não são os ABBA que são bons; somos nós que somos tão bons que até vemos neles a qualidade que os outros confundem com lixo).
Uma canção dos ABBA é o cigarro à hora exacta, a tacada de snooker que marca e deixa a branca pronta para acabar o jogo, é o café perfeito às oito da manhã quando o dia começa a ficar claro e o nosso cronista perfeita acerta com as palavras no coração do afecto no exacto instante em que o sol raia, é coado, torcido, ampliado pela janela e vem aninhar-se no peito.
Uma canção dos ABBA é a Carolina a olhar para mim e a dizer, pela primeira vez na já tão longa vida dela: tio.
Uma canção dos ABBA é o teu sorriso pela matina, minha rainha.
O melhor do mundo são os ABBA e não consta que JC gostasse de música experimental.
É por isso que, se não te opuseres, um dia eu direi, diariamente, ao nosso filho:
ouve os ABBA, pequenino sujo, ouve os ABBA...
Publicado por jb em março 4, 2004 12:53 AM