FJ Viegas escreve isto:
"Eu não sofro com estados de alma. E, já que se trata de falar disso, nunca na blogosfera; o «intimismo» não significa «demasiada intimidade»."
Nunca há, caro Francisco, demasiada intimidade. Nunca se conhece ninguém pela escrita. E há um espaço da partilha (que não é partilha alguma, porque mesmo aqueles que optam por uma escrita acerca da intimidade - e aí concordo consigo: é diferente escrever-se sobre a intimidade ou escrever-se intimamente - sabem, pelo menos se tiverem um mínimo talento de escrita, onde acaba a vida e começa a literatura) de palavras que podem ou não ter ligação com o real, há um espaço - que pode ser usado como suposta abertura à intimidade - que não tem obrigatoriamente de chocar pelo seu despudor.
Não consigo perceber este tipo de queixas que o FJV faz. Não consigo porque acho que da mesma forma que se pode discutir política pode-se também escrever apenas. Se quem lê crê que o que se escreve é verdadeiro (pode sê-lo ou não; que interessa?) isso é com quem lê. Não há intimidade alguma aqui. Mesmo que a pessoa A pusesse em rede as fotografias do marido e dos filhos não haveria devassidão, não haveria violação de espaço nenhum. É que tudo depende da forma como essa intimidade é tratada. Do carácter literário das palavras. Do lado efabulatório das palavras.
(Pergunto-me se quando o Francisco reproduz poesia ou fala de um escritor que gosta não estará a devassar mais a sua intimidade do que alguns de nós que aparentemente escrevem sem pudor sobre si próprios.)
Contar. O que importa é, apenas e só, contar.
O que se conta é de somenos importância. Se assim não fosse não existia literatura.
Por instantes, ao ler FJV, lembrei-me de Platão a querer expulsar os poetas do templo.
Nem todos podem sê-lo, claro. E é bem verdade que a má literatura devia ser considerada crime (eu seria o primeiro a sofrer com isso - continuaria a escrever o que bem me apetecesse). Nem todos podem sê-lo - mas têm o direito de tentá-lo.
Mas no fundo o que mais impressão me causou foi apenas isto: "Eu não sofro com estados de alma."
Então sofre com quê, Francisco?
Publicado por jb em março 3, 2004 06:04 PM