Eu e o Bernardo ficávamos muitas vezes breves dez minutos à conversa e tolhíamos a saudade (eu de nada, ele da Laura) com gin tónico enquanto deambulávamos pelo mundo das ideias e pudicamente construíamos aquilo a que homens menos amargos chamariam amizade. Ele desenhava, eu escrevia. O velho falava de Angola, as vulvas passavam (ah, meu colega imperador de estirador erecto) e o empregado atirava o croissant para cima da mesa enquanto nos insultava. E o Porto era-nos indiferente quando estávamos no Ceuta.
Lembro-me. Dos fins de tarde, dos desenhos, dos livros de filosofia. De querermos tomar o mundo antes que o mundo nos fodesse a vida. Da ternura com que açorianamente pronunciavas "Laura".
Os outros, Bernardo, preocupam-se com o mundo. Queixam-se, digladiam-se, acusam-se. Tu continuas a desenhar, eu a escrever. Não é muito. É o que nos vale.
E agora, se me permites, vou pronunciar a palavra "ternura". Um abraço mouro, meu amigo.
Publicado por jb em fevereiro 29, 2004 09:49 PM