agora que os narcisos murcham
sobre os lençóis que cobrem as sobras dos corpos que ousaram tragar a noite
agora que os narcisos se transformam em metástases de cinza nos corpos
que calcorrearam cada esquina dos lençóis
agora que o sangue lava as metástases dos lençóis e os rostos ressurgem na névoa memorial dos espelhos
esperemos a subida das águas às órbitas rasas de raiva
dos olhos
esperemos que a água nos procure onde o choro se torna canto
esperemos que o sangue abra o caminho.
porque tudo renasce da noite
tu danças
com pés que rompem os espelhos
e quebras fronteiras, queimas bandeiras, cegas os arpões impoetentes das mãos, danças o sujo dos soalhos de pensões de província
e o oblíquo descair do fio que sustenta o espelho no prego
e o mundo no mundo
danças a antíqua morte que devém vida e o desequilíbrio
danças a balança que sobrepesa o pânico das paredes descendo sobre nós
em pensões baratas de província as baratas dançam oblíquas o horror dos narcisos queimados nos espelhos
agora que a água turva a ideia de pureza
dancemos
à tua dança
uma última vez.
agora que a terra queima os narcisos e as águas ardem
para dentro
baixemos as cinzas à terra dos olhos
em que as rosas nascem
para sangrar o amor.
(porque "o sangue abre o caminho", assim o disse Egon Schile, assim o sabe Dom Rigoberto, pelo menos, segundo Vargas Llosa. Eu poderia acrescentar: "absolutamente necessario", mas não tenho chapas de zinco sobre mim, nem são seis da manhã, nem tenho o hábito de cair na estrada e de me sentar no rebordo da piscina com uma garrafa de tequilla na mão. valha a verdade que não tenho piscina - mas tenho amigos que têm gatos e um dia apertar-lhes-ei o pescoço [aos gatos], mas apenas e só à hora do chá. "O sangue abre o caminho" para as cidades em ruína do meu coração. E no entanto. E no entanto, ontem, Mário Santos usou, nas páginas do Mil Folhas, a palavra "ternura". E por instante Mário, vi-te no jornal, com os auscultadores nos ouvidos [que ouvirás tu?, pergunto-me sempre] e percebi que o caminho sempre esteve aberto - e o sangue somos nós que o vemos. Saberia disto, Nabokov? Diz-me, Mário - "é que eu também, como a Natureza, tenho horror ao vazio". O vazio que nos jornais deste país só as tuas palavras combatem. Que ninguém repare nisso só faz deste lugarejo um país errado. Claro, dir-me-ás que nada disto faz muito sentido, começar com um poema [?] escrito a correr com não sei quantos versos roubados e acabar a falar de ti. A culpa, claro, é tua. Citaste Wittgenstein. Laudaste Nabokov. Falaste de toda a ternura do mundo. Que culpa tenho eu se és "absolutamente necesario"?)
Publicado por jb em fevereiro 29, 2004 07:19 PM