fevereiro 21, 2004

ALGUMAS PARVOÍCES APÓS UM CERTO EXAGERO NO GIN TÓNICO

Conheço a ferida aberta na infância.
Traço-lhe os contornos com a mão em brasa. Respiro dessa úlcera.

Ponho os dedos na boca para avaliar da doçura da minha escrita. É mel em fogo, a boca uma gárgula de horrores
cada palavra um estilhaço
hostil ao mundo.

Viver para ferrar e morrer em seguida
- este é o teu destino
(diziam).

Amo os amigos verdes sentados no cimo de maçãs
maduras
como os pés na água, ardendo
amo a água que sustenta os amigos derrotados pela ideia de afogar
amo os amigos pela física privada da nossa música
os gestos de uma cegueira demoníaca
, ígneos amigos apagados pela garrafa.

Vi frutos implodirem de excesso de doçura,
nenhuma manta para cobrir este sangue.

Separar as águas
equilibrar as qualidades dos frutos.
Ferrar para morrer em seguida.

A tarefa de caminhar como quem esgana uma ideia morta.
Pintar os lábios à raiva, passeá-la pela trela: há homens que ejaculam quando se enforcam, assim
nascem as mandrágoras.
A corda suspensa da ferida aberta na infância, não construirei nada.

Não construirei nada.

Publicado por jb em fevereiro 21, 2004 08:32 PM
Comentários