Tenho uma certa simpatia por Ferro Rodrigues, a mesma que tenho por alguns buldogues e certos touros: a papada, as rugas por baixo dos olhos mortiços - tudo isto cria em mim uma certa simpatia por estes seres com ar de animal abandonado pelo dono que foi de férias. Compreendo-lhes a dor - eu próprio fui abandonado por toda a minha família, que, um belo dia, resolveu ir em conjunto comprar tabaco e nunca mais voltar. Valha a verdade que morreram todos de cancro no pulmão. Mas desvio-me do tema.
Ferro, segundo esta notícia do Público, disse hoje (ontem):
"O secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues, acusou hoje Durão Barroso de fazer "publicidade enganosa" ao anunciar que o défice público de 2003 foi de 2,8 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), quando os portugueses esperavam que "finalmente fosse anunciada a remodelação do Governo".
Não percebo. Mas agora Durão, quando convoca uma conferência de imprensa, deve dizer aquilo que o povo está à espera?
Isto coloca dois problemas:
a) Durão passa a vida a dizer aquilo que o povo quer ouvir (isto é, quando fala; ele raramente aparece que é para não sujar a imagem). E Ferro passa a vida a contestar isto, a chamar-lhe "governação à vista" (o que até me parece bem dada a obsessão moderna com a transparência*). Ora, agora que Durão veio dizer o que o povo não estava à espera, Ferro critica-o. Coerência, senhores, coerência...
b) Se Durão disser o que o povo quer ouvir e Ferro, que quer ser primeiro ministro, disser o que o povo quer ouvir, todos vão dizer oque o povo quer ouvir. Ora, eu acho que seriamuito chato para as portuguesas e portugueses chegar a casa e ouvir as mesmas declarações dadas pelos vários líderes partidários. Nem falo por mim que apenas vejo o Sexy Hot, mas acima de tudo estou preocupado com os outros. Ao fim e ao cabo, se não tivermos alienação decente e imaginativa, o que nos distingue dos não-ocidentais?
c) No seguimento doúltimo ponto, atentemos na carreira política de Santana Lopes, mais importante que a própria Nação, pelo menospara o jornal de variedades, Expresso: que seria de Santana sem essa capacidade de surpreender toda a gente com declarações bombásticas - que virtualmente não querem dizer nada, e dão a entender que o rapaz sofreu, há muito, uma lobotomia (tal como a secção depolítica do Expresso, a começar pelo seu director)? Sem isto, Santana não seria presidente da Câmara e nós não teríamos aqueles belíssimos cartazes (Lisboa, cidade museu do cartaz? Já faltou menos, irmãos, acreditemos, acreditemos...) que nos embelezam a cidade.
Pensem nisto, minha gente boa, pensem nisto...
*A este propósito, talvez esteja na hora de convidar Fátima Lopes a "vestir" a classe política...