Esta terra de abrigo é definitivamente "O Disco da Vida" da Ronda dos Quatro Caminhos. Não que menospreze todo o trabalho deles. Não o conheço muito bem, mas o pouco que conheço não faz parte do que me apaixona na música popular portuguesa.
Mas este disco amplifica o cante alentejano (uma enorme paixão minha) sem o esgotar, sem o abastardar, sem o vulgarizar. Transporta-o para uma outra dimensão, de uma enorme beleza.
O concerto de sábado (só vi o das 17h30) foi um dos mais belos momentos musicais a que assisti em toda a minha vida. A prova de que a tradição popular e a música erudita podem tocar-se sem se beliscarem.
Pessoalmente deixava lá só as canções do Alentejo, foram elas que me levaram lá, e vou guardar durante muito tempo a força daquelas vozes em bruto, elevadas ao céu pelas cordas da orquestra. Vou recordar com um sorriso nos lábios algumas das saias mais genuinas que alguma vez ouvi em palco (saidas da boca de uma aguerrida cantora que não parecia ter mais de 20 anos). Vou continuar a arrepiar-me a ouvir Kátia Guerreiro a juntar fado a tudo isto. E vou, acima de tudo, continuar a ficar com os olhos marejados de lágrimas a ouvir "Gota D'água" esse chamamento do Alentejo por algo que sempre lhe escapou por entre as mãos.
Muito obrigado à Ronda cujos caminhos levaram a este disco e a este espectáculo. Podem ler uma excelente entrevista a Carlos Barata aqui.
E tudo isto vai dedicado ao Luís Rei, e à sua paixão pela música. As Crónicas da Terra são uma referência obrigatória, e deliciosa.
Publicado por ps em janeiro 27, 2004 02:04 AMOlá Pedro, muito me honras com essas palavras. Também estive no concerto das 17h30 e senti exactamente o mesmo que tu. Este foi um dos concertos mais belos a que assisti na vida. E os momentos mais altos foram sem dúvida a Kátia Guerreiro e o grupo de saias de campo maior. A ligação orquestra-coros-banda é perfeita. Há aqui muito mérito da ronda em não ter apimbalhado o resultado final. Poderiam ter levado a coisa para o ligeiro cancenotismo com orquestra, estilo Calvário ou James Last. Mas não. Já viste que com gente simples, bem orientados, se faz um grande disco e um excepcional concerto? Coisa que o Carlos Núñez ou os Chieftains nesta fase algo senil, com todas as estrelas possíveis à sua mercê, nunca farão.